Nem sempre assim….

29 Abril, 2008

Santuário

Arquivado em: Contos — Pedro Jacarte @ 11:22 am

Há três anos ele seguia o mesmo ritual. Seu Adamastor, como era conhecido no bairro, acordava às 05:30 da manhã para se arrumar. Tomava seu banho matinal, penteava seus cabelos com muito cuidado, escovava os dentes e se vestia cuidadosamente sobre a cama. Não poderia mais cair ou sofrer o menor acidente possível. Se dirigia então à cozinha. Um pão com manteiga e um café com leite. Todos os dias a mesma coisa. Obviamente que era tudo sempre entregue na porta de sua casa. Adamastor não saía mais dela.

Às 07:15 em ponto, nem um minuto a mais e nem outro a menos, Adamastor se dirigia ao quarto reservado. Ao seu Santuário, como ele dizia para si mesmo. Lá, ajoelhava-se e rezava. Pedia à Deus que o levasse embora. Que acabasse com o sofrimento de viver sem sua esposa tão amada. A esposa que havia dedicado toda sua vida a ele. Foram 63 anos de casado, que Adamastor não deu o valor que merecia. Não quando ela estava viva. Suas escapadas durante o casamento agora o perseguiam em sua mente. Seu arrependimento das discussões lhe tiravam o sono. Mas ela precisou ir para ele perceber isso.

Quem iria cuidar dele? Quem iria lhe abraçar durante a noite? Nem o jantar ele sabia fazer. Adamastor se aposentou de vez. Pedido antigo de sua esposa. Parou de sair de casa e passou a encomendar suas necessidades do mercadinho mais próximo. Desapareceu da vizinhança. Ligava às vezes para um amigo ou outro para que estes não lhe incomodassem com uma visita. Nenhum filho o visitava. Eles não tiveram. Culpa de Adamastor, estéril. Agora, tudo, para Adamastor, foi culpa dele, que se esquecera dos votos que fizera assim que saira da igreja. Era hora de buscar o perdão.

E assim ele o fazia. Todos os dias. Às 07:15 da manhã. Buscava o perdão com uma reza. Acendia uma vela e 12 incensos. O número de incensos foi crescendo com o tempo. E Adamastor, que unca havia acendido um, acabou não se incomodando mais com o cheiro. Já estava acostumado depois de tanto tempo. Olhava uma última vez para as fotos de sua esposa ao redor do quarto e chorava silenciosamente. Caminhava o curto trajeto e beijava sua face pálida, gélida. Seu rosto ora belo, hoje apodrecia lentamente. Mas Adamastor não se importava. Beijava ainda assim. Pois ninguém tiraria seu amor de perto dele. Saía do quarto e ia assistir sua televisão. Esperando sua morte e a chance de reencontrar sua amada esposa.

15 Abril, 2008

A velha a fiar

Arquivado em: Contos — Pedro Jacarte @ 1:48 pm

Na sala da casa já muito antiga da zona rural de Pernambuco, a velha se preparava como fazia todos os dias. Arrumava seu cabelo em um coque e enrolava o novelo. Sozinha, na sala escura iluminada por uma pequena vela e acompanhada por sua caneca de água, sentava-se em frente à roda da qual gostava de passar todas as noites, a fiar. Nessa noite, no entanto, seria um pouco diferente.

Tudo começou com a presença de uma pequena mosca que entrou pela janela que dava para o pasto. Ela foi direto no nariz da velha, importunando-a. Despercebidamente, a velha apenas a expulsou e continuou a fiar. A mosca, repousada no chão perto da velha, acabou por experenciar o seu próprio remédio logo em seguida, quando uma imensa aranha desce de sua teia do teto e a ataca. A mosca prontamente se refugiou na velha, que a afastou com um tapa e que, por sua vez, continuou a fiar.

A aranha, desolada por ter deixado escapar sua presa, nem percebeu quando um rato branco saiu de sua toca para atacá-la. A aranha, mais esperta que o rato, por pouco escapa e acaba encontrando seu antigo jantar, que foge mais uma vez para de novo encontrar a velha, que já estava irritada com a mosca que sempre a atrapalhava. A velha, no entanto, continuou a fiar.

Mal sabia o rato que o gato, seu eterno rival na fazenda da velha, estava a sua espera. O gato salta por cima do rato, que foge desesperadamente e que acaba por de novo tentar abocanhar a aranha que pula para cima da mosca que voa para o braço da velha que o sacode violentamente para tirar a inoportuna mosca e, assim, continuar a fiar. Mas numa fazenda, os bichos sempre têm que tomar cuidado….pois o mais antigo vira-lata não ia deixar barato, nem com o peso de seus 12 anos de companhia prestados a velha. E o gato, que até então se achava o “maioral”, se viu perseguido pelo cachorro e voltou a perserguir o rato. Este tentou mais uma vez comer a aranha que avançou na mosca que voou sobre a velha, atazanando-a. Pequenos animais são comuns nesses lugares. E a velha, simplesmente, continuou a fiar.

Cada um no seu canto…todos quietos. A mosca, a aranha, o rato, o gato, o cachorro…e a velha a fiar. A sala, contudo, não deixaria tuda em paz e na mais perfeita (des)ordem. Se os animais não mais se manifestariam, espíritos demoníacos decidiram intervir. Um pedação de madeira voou em direção ao cachorro, que descontou no gato, que provocou o rato, que atacou a aranha, que quase pegou a mosca que importunou a velha, que permaneceu a fiar.

Mas tinha mais de uma entidade no local, pois da vela saiu uma bola de fogo que foi atacar o pau que tinha optado por ficar quieto em seu lugar, desencadeando uma sequência de ataques que mais uma vez levou a mosca à velha. Esta, impressionantemente alheia a todo o rebuliço ao seu redor, apenas regojizou-se da melhora da iluminação para continuar a fiar. No entanto, a nova iluminação sofreu perturbações quando a água da caneca de metal se multiplicou sozinha e foi ao seu encontro. Os ataques mútuos continuavam, ninguém queria sair perdendo nessa guerra. Só a velha…que a continuava a fiar.

A essa altura, essa história parecia não ter fim. Um boi entrou na sala buscando beber da água que se multiplicou. A seca há muito estava acabando com o interior, e o boi não iria deixar a possibilidade de saciar sua sede ir embora. A água, no entanto, decidiu voltar a atacar o fogo, que atacou o pau, que tentou bater no cahorro, que avançou no gato, que pulou em cima do rato, que tentou prender a aranha, que avançou na mosca que zuniu pela velha. E a velha? Ah…essa CONTINUAVA A FIAR!

O rebuliço finalmente chamou a atenção do resto da família. O filho da velha foi ao seu socorro pegar o boi, que já tinha desistido da água. Mas o animal quando viu que a ia perder para sempre, tentou dar mais um gole…mas á agua não ia se perder sem antes tentar apagar o fogo e todo o processo re-continuava. Tudo acontecendo e a velha , aparentemente surda, muda e cega, continuava a fiar.

A esposa dele foi tentar ajudá-lo, berrando mais do que podia e irritando o homem que tentava resolver a situação com o boi….e…e…e…. Por fim, a nora da velha morreu ao seu lado. Ato da própria Morte. Pela primeira vez a velha olha para os lados. Em sua sala antes tranquila, estavam uma mosca, uma aranha, um rato, um gato, um cachorro, um pau flutuante, uma bola de fogo, uma bola de água, um boi, seu filho e sua nora morta no chão (além da companhia da morte). Desesperada e sem saber como proceder, a velha sentou-se….e continuou a fiar….

1 Abril, 2008

Caixa de Música

Arquivado em: Contos — Pedro Jacarte @ 9:58 pm

Ela a abriu mais uma vez. Maria ficava hipnotisada cada vez que olhava para aquela bailarina, rodopiando apoiada em uma perna, com a outra esticada para o alto. O coque, ainda intacto, lhe dava a impressão elegante de outrora, apesar do vestido já rasgado e amarelo do tempo confessar sua real idade. A música que saía, ora sua preferida, agora a irritava. Mas não podia tirá-la de perto. A pequena caixinha de música, de madeira escura, toda detalhada em ouro, tinha que ficar ao seu lado. Deitada na cama, ainda de camisola, Maria a esperava.

Havia tempos que as duas não se falavam. Cinco anos para ser mais exato. Elas haviam discutido ferozmente naquele que seria o dia mais feliz de Sofia, seu casamento. Mas Maria nunca aprovou o genro escolhido por sua filha como esposo. Desde o primeiro momento que o conheceu, Maria não aceitava o namoro dos dois. Achava que Ageu ignorava Sofia. Que não serveria como marido, muito menos como futuro pai. Simplesmente não era digno.

Sofia, relutante, não aceitou. Estava cega pelas palavras enebriantes e carinhosas de Ageu. Comprou a briga da mãe e se casou. Talvez tenha inicialmente namorado com ele para enfrentar a mãe pela primeira vez. A mãe tão dominadora e protetora que um dia Sofia temeu. Não mais. Não agora. Ageu, sempre esperto, viu a oportunidade e se lançou a Sofia como se representasse seu grito de liberdade. E Sofia prontamente berrou.

Mas Ageu não era confiável. A promessa de um dia se transformou no pesadelo do outro. Era sempre um jeito de ganhar dinheiro fácil que quase os levava à falência. E Ageu não desistia de tentar. Nunca com seu dinheiro, obviamente, mas com o dinheiro que obtia por chantagem emocional com sua sogra. Sofia nunca saberia. Nunca perdoaria a mãe. Não se falariam mais. Mas Maria, preocupada com a filha e a neta ainda criança, sempre acabava dando dinheiro a Ageu. Até que um dia…parou. E decidiu confrontar a filha e o seu genro. Mas Ageu não permitiria.

Sofia eventualmente cedeu e atendeu aos pedidos da mãe. Mas Sofia cedeu tarde. Quando foi ao seu encontro, sua mãe já estava gelada sobre a cama. Obra de Ageu. Quando percebeu o inevitável, Maria só pediu a Ageu que colocasse a caixinha de música ao seu lado, aberta. Ageu atendeu sem saber que foi desta forma que há anos atrás Maria havia  encontrado sua própria mãe, morta por seu pai. Um grito desesperado para avisar sua filha. Sofia não entendeu. Viu sua mãe e chorou. Pegou a caixinha de música e guardou consigo.

Assim como a bailarina uma vez foi o conforto de Maria, ela também seria o de Sofia. Sofia ficou com a caixinha. Ageu, com a herança. 

5 Março, 2008

Bom dia senhor! Em que posso ajudá-lo?

Arquivado em: Contos — Pedro Jacarte @ 4:53 pm

Já são quase 10 hrs quando ele desce do carro. Trajando um terno chumbo com risca de giz, uma camisa preta e uma gravata prata, ele se ajeita para parecer impecável. Apesar de ser novo, sua triste tentativa de cobrir sua precoce careca com os cabelos laterais o faz aparentar mais de 40 anos. Ele se move até a parte de trás do carrro:
- Muito obrigado! – Diz o senhor ao taxista ligeiramente barrigudo e que, por algum motivo, ostentava orgulhosamente um bigode peludo, ajudando-o a retirar a última mala do carro.
Cansado de sua viagem de 12 horas de avião mais 40 minutos de taxi, o homem se dirige à recepção de seu hotel. Uma bela recepcionista, loira, de olhos verdes, bate suavemente a tampa da caneta bic no canto direito da sua boca. A recepcionista leva um ligeiro susto, soltando um divertido gritinho quando o homem se aproxima da bancada do hotel. Ela abre seu mais plastificado sorriso e diz:
- Bom dia, sr.! Em que posso ajudá-lo?
- Bom dia. Eu tenho uma reserva no nome de Jacarte, Fernando.
- Ah, sim senhor. Vou pegar uns formulários e já trago para o senhor.
- Obrigado!
Cinco minutos depois, a mesma recepcionista volta.
- Bom dia, sr.! Em que posso ajudá-lo?
- Meu quarto.
- Desculpe sr., mas estamos lotados. O senhor deveria ter feito uma reserva antes! -soltando um sorriso meio vazio no final.
- Mas eu fiz.
- Ah, senhor. Deveria ter falado antes. Qual o seu nome?
- Jacarte, Fernando. – diz ligeiramente desconfiado.
- Eu vou pegar os formulário e já checo para o senhor.
-….
- Bom dia, senhor! Em que posso ajudá-lo?
- ‘cê tá de brincadeira comigo?
- Perdão, senhor?
- Quarto. Formulário! – já perdendo um pouco a paciência, pela qual nunca foi famoso de ter.
- Mas estamos lotados, senhor!
- Jacarte. Fernando. Reserva.
- O senhor tem duas reservas? Nesses dois nomes? O primeiro é?
- Uma reserva. Já te falei 2 vezes. – aumentando o tom de voz.
- Senhor, por favor, não se exalte. Não há motivos para isso. Vou checar e já venho!
- Não! Espere!!!! VOLTE!
- Desculpe, senhor. Não o vi aí. Bom dia! Em que posso ajudá-lo?
- HÃ??????????????????? VOCÊ É LOUCA????
- Senhor, por favor não berre. Em que posso servi-lo?
- CHAMA O GERENTE!
- O senhor poderia se controlar ou chamarei a segurança? – sempre mantendo, com pouquíssimo esforço, o irritante sorriso em seu rosto.
- Claro! (com o sangue fervendo nas têmporas) Chame o gerente por favor, querida?
- Só um minuto, senhor.
Dez minutos depois, ela retorna, com o mesmo sorriso vazio de sempre.
- Bom dia, senhor! Em que posso ajudá-lo?
- GGGGGGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRRRRRRRR
Ninguém sabe ao certo o que ocorreu daí. Relatos comentam apenas que houve muito barulho e coisas atiradas. Fernando Jacarte passou uma noite na delegacia prestando depoimento. Ninguém sabe ao certo o que ocorreu com a recepcionista…ninguém se lembra.

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