Ela a abriu mais uma vez. Maria ficava hipnotisada cada vez que olhava para aquela bailarina, rodopiando apoiada em uma perna, com a outra esticada para o alto. O coque, ainda intacto, lhe dava a impressão elegante de outrora, apesar do vestido já rasgado e amarelo do tempo confessar sua real idade. A música que saía, ora sua preferida, agora a irritava. Mas não podia tirá-la de perto. A pequena caixinha de música, de madeira escura, toda detalhada em ouro, tinha que ficar ao seu lado. Deitada na cama, ainda de camisola, Maria a esperava.
Havia tempos que as duas não se falavam. Cinco anos para ser mais exato. Elas haviam discutido ferozmente naquele que seria o dia mais feliz de Sofia, seu casamento. Mas Maria nunca aprovou o genro escolhido por sua filha como esposo. Desde o primeiro momento que o conheceu, Maria não aceitava o namoro dos dois. Achava que Ageu ignorava Sofia. Que não serveria como marido, muito menos como futuro pai. Simplesmente não era digno.
Sofia, relutante, não aceitou. Estava cega pelas palavras enebriantes e carinhosas de Ageu. Comprou a briga da mãe e se casou. Talvez tenha inicialmente namorado com ele para enfrentar a mãe pela primeira vez. A mãe tão dominadora e protetora que um dia Sofia temeu. Não mais. Não agora. Ageu, sempre esperto, viu a oportunidade e se lançou a Sofia como se representasse seu grito de liberdade. E Sofia prontamente berrou.
Mas Ageu não era confiável. A promessa de um dia se transformou no pesadelo do outro. Era sempre um jeito de ganhar dinheiro fácil que quase os levava à falência. E Ageu não desistia de tentar. Nunca com seu dinheiro, obviamente, mas com o dinheiro que obtia por chantagem emocional com sua sogra. Sofia nunca saberia. Nunca perdoaria a mãe. Não se falariam mais. Mas Maria, preocupada com a filha e a neta ainda criança, sempre acabava dando dinheiro a Ageu. Até que um dia…parou. E decidiu confrontar a filha e o seu genro. Mas Ageu não permitiria.
Sofia eventualmente cedeu e atendeu aos pedidos da mãe. Mas Sofia cedeu tarde. Quando foi ao seu encontro, sua mãe já estava gelada sobre a cama. Obra de Ageu. Quando percebeu o inevitável, Maria só pediu a Ageu que colocasse a caixinha de música ao seu lado, aberta. Ageu atendeu sem saber que foi desta forma que há anos atrás Maria havia encontrado sua própria mãe, morta por seu pai. Um grito desesperado para avisar sua filha. Sofia não entendeu. Viu sua mãe e chorou. Pegou a caixinha de música e guardou consigo.
Assim como a bailarina uma vez foi o conforto de Maria, ela também seria o de Sofia. Sofia ficou com a caixinha. Ageu, com a herança.
q raiva do Ageu…
Comment por DamadaLua — 2 Abril, 2008 @ 1:55 pm |
Diferente, sobrio e excelente… adoro seus contos… MAS… odeio o verbo “berrar”!
Comment por Jose Matias — 3 Abril, 2008 @ 9:46 pm |
Ageu, maledeto! Agora não se tem mais amor por você!!! Como dinheiro, porém sem sexo!!!
Comment por Marina — 4 Abril, 2008 @ 9:53 am |
Senti na carne meu próprio veneno. A tragicidade aguça a criatividade. Como é bom narrar o final infeliz. Brincadeira … Excelente. Já convidei uma vez, convido novamente: venha para o ContoNovela.
Comment por Ricardo Fernandes — 9 Abril, 2008 @ 1:51 pm |