Há três anos ele seguia o mesmo ritual. Seu Adamastor, como era conhecido no bairro, acordava às 05:30 da manhã para se arrumar. Tomava seu banho matinal, penteava seus cabelos com muito cuidado, escovava os dentes e se vestia cuidadosamente sobre a cama. Não poderia mais cair ou sofrer o menor acidente possível. Se dirigia então à cozinha. Um pão com manteiga e um café com leite. Todos os dias a mesma coisa. Obviamente que era tudo sempre entregue na porta de sua casa. Adamastor não saía mais dela.
Às 07:15 em ponto, nem um minuto a mais e nem outro a menos, Adamastor se dirigia ao quarto reservado. Ao seu Santuário, como ele dizia para si mesmo. Lá, ajoelhava-se e rezava. Pedia à Deus que o levasse embora. Que acabasse com o sofrimento de viver sem sua esposa tão amada. A esposa que havia dedicado toda sua vida a ele. Foram 63 anos de casado, que Adamastor não deu o valor que merecia. Não quando ela estava viva. Suas escapadas durante o casamento agora o perseguiam em sua mente. Seu arrependimento das discussões lhe tiravam o sono. Mas ela precisou ir para ele perceber isso.
Quem iria cuidar dele? Quem iria lhe abraçar durante a noite? Nem o jantar ele sabia fazer. Adamastor se aposentou de vez. Pedido antigo de sua esposa. Parou de sair de casa e passou a encomendar suas necessidades do mercadinho mais próximo. Desapareceu da vizinhança. Ligava às vezes para um amigo ou outro para que estes não lhe incomodassem com uma visita. Nenhum filho o visitava. Eles não tiveram. Culpa de Adamastor, estéril. Agora, tudo, para Adamastor, foi culpa dele, que se esquecera dos votos que fizera assim que saira da igreja. Era hora de buscar o perdão.
E assim ele o fazia. Todos os dias. Às 07:15 da manhã. Buscava o perdão com uma reza. Acendia uma vela e 12 incensos. O número de incensos foi crescendo com o tempo. E Adamastor, que unca havia acendido um, acabou não se incomodando mais com o cheiro. Já estava acostumado depois de tanto tempo. Olhava uma última vez para as fotos de sua esposa ao redor do quarto e chorava silenciosamente. Caminhava o curto trajeto e beijava sua face pálida, gélida. Seu rosto ora belo, hoje apodrecia lentamente. Mas Adamastor não se importava. Beijava ainda assim. Pois ninguém tiraria seu amor de perto dele. Saía do quarto e ia assistir sua televisão. Esperando sua morte e a chance de reencontrar sua amada esposa.